quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Vestibular adaptado para surdos, uma conquista na FGV em São Paulo.

Eduardo Parise era uma criança como todas as outras: só era muito ruim no pique-esconde. Quando brincava com os primos, era facilmente achado, porque deixava sua respiração fazer muito barulho. Eduardo nasceu surdo. No mês que vem, aos 35 anos de idade, ele fará pela primeira vez um vestibular adaptado às suas necessidades.

A novidade é da Escola de Administração de Empresas da FGV em São Paulo. Para compensar a eventual falta de vocabulário específico, os candidatos surdos terão à disposição um intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais) para traduzir os enunciados das questões. E, apesar de fazerem a redação normalmente, erros gramaticais normais para surdos, desde que não comprometam o entendimento, serão desconsiderados. A escola vai custear ainda intérpretes de Libras para acompanhar os futuros alunos.

Será uma segunda chance para Eduardo, que já cursou Administração em outra faculdade mas não se formou. Escreveu ele, em entrevista por e-mail: “não tive nenhuma condições prestar ao vestibular (sic), por causa da dominação língua portuguesa e dificuldade de palavras e não há interpretação”. Eduardo lamenta a limitação imposta à sua carreira profissional por não poder, por exemplo, se comunicar por telefone.

Inclusão
O vestibular adaptado não é uma iniciativa isolada. A professora Sônia Regina de Oliveira dá aulas de Libras para alunos ouvintes da EAESP-FGV há quatro semestres. Ela perdeu a audição aos 12 anos. “No início do curso, a motivação da maioria é a curiosidade de conhecer uma língua nova, mas depois o interesse pela inclusão, e a consciência de que podem colaborar para que ela ocorra, torna-se evidente”, contou ela, também por e-mail. “Alguns alunos comentam a importância da disciplina para a desconstrução de estereótipos e preconceitos.” A matéria optativa, de 30 horas, permite aos alunos participar de conversas simples, com apresentação, agradecimentos e solicitações, mas não é suficiente para participar de discussões ou usar conceitos abstratos. “Libras é de fato outra língua e não uma expressão do português por meio de sinais com as mãos”, ressalta o professor Nelson Lerner Barth, vice-coordenador da graduação em Administração.

O analista de marketing Diego Genari, de 23 anos, foi um dos alunos da professora Sônia no segundo semestre de 2010. Entusiasta dos idiomas, ele é fluente em inglês e espanhol e às terças assiste a uma aula de duas horas de chinês. “Aprender Libras foi um desafio”, diz. “Fui motivado pela curiosidade, era uma forma de aprender algo.” Para ele, o mais interessante da disciplina não foi aprender a se comunicar, mas entender a cultura dos surdos. “Eles vivem de forma diferente e sofrem um preconceito muito forte”, afirma. “Também foi interessante aprender que o Libras tem variações regionais em cada lugar do País.” Depois de formado, Eduardo já conseguiu conversar com um funcionário surdo de outra área da sua empresa. “Se hoje eu tivesse que contratar um surdo, não iria descartar”, diz. “E se você rompe um preconceito, isso ajuda a acabar com os outros.”

Silêncio
Natália Cunha, analista de inovação tecnológica e também de 23 anos, formou-se em Administração Pública pela FGV e foi monitora de Libras quando Diego cursava a disciplina. Ela fez a matéria no semestre anterior. “Sempre fui louca para aprender Libras”, conta ela, que hoje mora no Recife. “Hoje sei os sinais básicos, falar o nome, as palavras para parentes, algumas cores, os meios de transporte – dá para falar sobre uma viagem”, explica. “Mas não posso dizer que sou fluente; um semestre não dá. Se vejo dois surdos conversando não consigo entender, eles falam muito rápido!”.

Para Natália, todo idioma vem acompanhado de comportamentos e valores. “Quem estuda Libras descobre que percebe pouco os detalhes visuais, e começa a aprender a riqueza dos gestos e das expressões do rosto”, garante. “É meio como fazer teatro, você desinibe.”

Num trabalho para outra disciplina na FGV, ela escreveu: “Quando conversamos em língua de sinais, a gente tem que prestar atenção no outro, como um todo. Com a fala, às vezes não precisamos nem direcionar o olhar. Às vezes você só finge prestar atenção, e responde ‘huum’, ‘ahan’. Já na Libras a resposta do outro ao longo da conversa também vai se traduzindo em expressões faciais e corporais, em vez de ‘huum’. Isso faz com que você pare e observe cada detalhe. É como ter uma janelinha que dá para a alma do outro, como ‘ouvir com a alma em silêncio’. Toda semana, no final da aula, parece-me que saímos de lá mais calmos, de alguma forma; porque trocamos tanta informação em meio ao silêncio”.

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